A tríade daomeana Nanã, Obaluaê e Oxumaré
Por: Pai Alexandre Falasco
O encontro entre tradições jejes e iorubás que une Voduns e Orixás em um só panteão.
Hoje, 24 de agosto, dia em que muitas casas reverenciam Oxumaré, recebi duas mensagens nos grupos do Barracão de Pai José que me fizeram pensar sobre a relação entre Nanã, Obaluaê e Oxumaré.
Nós costumamos falar deles como uma linhagem, uma família sagrada, e até como uma "tríade da palha". Mas por trás dessa proximidade existe também uma história muito interessante sobre a formação das religiões de matriz africana no Brasil.
Nanã, Obaluaê e Oxumaré têm raízes muito fortes nas tradições jejes, ligadas aos povos da região do antigo Daomé, atual Benim, na África Ocidental. Ali, o termo mais adequado para essas divindades é Vodum. Já a palavra Orixá pertence originalmente ao universo iorubá.
Quando diferentes povos africanos foram trazidos escravizados para o Brasil, essas tradições passaram a conviver de forma intensa. E isso não aconteceu apenas nas senzalas. Aconteceu também nas cidades, nos mercados, nas irmandades negras, nos antigos cultos, nas famílias e, mais tarde, nos terreiros.
Foi nesse processo de resistência, convivência e reconstrução que muitas divindades de origem jeje passaram a ser cultuadas também dentro de tradições de forte influência nagô-iorubá.
Não foi simplesmente uma "mistura". Foi uma forma de sobrevivência religiosa e cultural.
Nanã, Obaluaê e Oxumaré
Dentro dessa grande reorganização, Nanã passou a ser reverenciada como a grande mãe ancestral, ligada à lama, à memória, às águas paradas e ao retorno da matéria.
Obaluaê, relacionado em sua origem ao complexo de Sakpatá, ficou profundamente ligado à terra, às doenças, à cura, à transformação e à morte.
Oxumaré, por sua vez, guarda forte relação com a serpente sagrada Dan, do universo jeje, e no Brasil passou a representar também o arco-íris, o movimento, a continuidade, a prosperidade e a renovação.
Por isso essa sequência faz tanto sentido para nós:
Nanã recebe.
Obaluaê transforma.
Oxumaré renova.
Nossa filha de santo Isabel Cunha escreveu hoje no grupo:
"É dia de Oxumaré: dia de movimento, reorganização, renovação. De deixar o que é antigo em seu lugar, de aprendizado, para permitir a vinda do que é novo!
Ainda estou aprendendo sobre esse Orixá que fecha o ciclo de uma linhagem sagrada: Nanã, Obaluaê e Oxumaré.
A lama que acolhe o fim para gerar a vida novamente.
O senhor das doenças e da morte, que limpa o espírito para uma nova existência.
E a serpente que troca de pele, mostrando que a vida nunca para de se renovar."
Achei muito bonita essa leitura porque ela resume, de forma clara, um ciclo inteiro.
A lama de Nanã não fala apenas de fim. Fala também da matéria que retorna para poder gerar outra vida.
Obaluaê nos lembra que a transformação passa pela cura, pela limpeza e pelo enfrentamento daquilo que precisa ser encerrado. (Ele é detentor do poder sobre a Morte e palavra "cura" quando relacionada a Obaluaê tem muitos significados porque vai além da matéria, Mãe Silmara lembrou isso no Olubajé desse ano, que a morte pode ser a cura da alma em alguns casos específicos.)
E Oxumaré aparece como o movimento que volta, como a serpente que troca de pele e como o arco-íris que anuncia que a vida segue.
Nanã, Iemanjá e Obaluaê
Também é muito interessante observar como as tradições se encontraram no Brasil por meio das histórias orais.
Uma das narrativas mais conhecidas conta que Nanã é a mãe de Obaluaê, mas o abandona ainda criança. Quem o encontra, acolhe e cria é Iemanjá, a grande mãe do universo iorubá.
Essa história é um mito religioso, não um fato histórico. Mas, para mim, ela também pode ser lida como uma bela imagem da própria formação das religiões afro-brasileiras.
Nanã e Obaluaê, de forte raiz jeje-daomeana, passam a fazer parte de uma família religiosa em que Iemanjá, de origem iorubá, assume também a maternidade de Obaluaê.
É como se a própria tradição oral tivesse criado um parentesco para expressar aquilo que a história fez acontecer no Brasil: povos diferentes passaram a reconstruir juntos suas relações com o sagrado.
O ciclo de julho e agosto
Nos calendários religiosos brasileiros, essa linhagem acabou formando ainda uma sequência muito bonita por causa do sincretismo com o catolicismo.
26 de julho - Nanã, tradicionalmente associada a Sant`Ana.
16 de agosto - Obaluaê/Omolu, associado em muitas casas a São Roque e também a São Lázaro.
24 de agosto - Oxumaré, associado a São Bartolomeu.
Essas datas não são africanas em sua origem. São datas construídas no Brasil, e podem variar de uma tradição para outra.
Mas, dentro da leitura que fazemos no Barracão, elas formam um ciclo muito simbólico.
Nosso filho de santo Eliabe Adibe, que é filho de Oxumaré, também escreveu hoje:
"A mãe Nanã que iniciou o ciclo em julho para que seus filhos finalizem em agosto.
A grande lição que esses Orixás nos deixam é que não existe renovação sem purificação. Nós precisamos que Obaluaê leve as doenças embora para ter estrutura para receber a prosperidade de Oxumarê. Um limpa o terreno, o outro enfeita o céu e nos devolve a alegria.
Que a terra leve as nossas dores, e que o arco-íris traga a certeza de que a vida sempre continua e se renova."
Essa frase, para mim, fecha perfeitamente o sentido dessa linhagem.
Não existe renovação sem transformação.
Nanã nos lembra que tudo tem um ciclo.
Obaluaê nos ensina que algumas dores precisam ser curadas e algumas coisas precisam ser deixadas na terra.
Oxumaré nos mostra que, depois disso, a vida volta a se mover.
Talvez seja justamente por isso que essa família sagrada continue falando tanto conosco.
Porque a própria tradição africana no Brasil também precisou fazer exatamente isso.
Foi obrigada a mudar para sobreviver.
Criou novos parentescos.
Aproximou Voduns e Orixás.
Recontou histórias.
Trocou de pele.
Mas permaneceu viva.
Salubá Nanã.
Atotô Obaluaê.
Arroboboi Oxumaré.