São João também é Xangô na Umbanda
Por: Pai Alexandre Falasco
Mas não era São Jerônimo? Carneiro, leão, vamos conferir.
Todo ano essa dúvida aparece: afinal, se Xangô é celebrado no dia de São Jerônimo, por que tanta gente também associa o Orixá a São João?
A resposta está na própria história das religiões afro-brasileiras.
Hoje, a maioria dos terreiros de Umbanda e Candomblé celebra Xangô em 30 de setembro, dia de São Jerônimo. Essa tradição é muito forte na Bahia e acabou influenciando boa parte dos terreiros espalhados pelo Brasil.
Mas nem sempre foi assim em todos os lugares.
Pesquisas históricas mostram que em Pernambuco, especialmente na região de Recife, Xangô era tradicionalmente celebrado durante os festejos de São João. Existem registros de terreiros montando altares juninos para São João usando elementos ligados a Xangô, incluindo o carneiro, animal votivo do Orixá e também figura presente na iconografia de São João.
A ligação não parava por aí. As fogueiras juninas, tão características do dia 24 de junho, também ajudaram a aproximar as duas tradições. Afinal, estamos falando de um Orixá ligado ao fogo (orixá iná), ao trovão e à justiça.
Essa associação ficou tão forte que pesquisadores registraram em Pernambuco a tradição segundo a qual "São João corresponde a Xangô".
Já a associação com São Jerônimo seguiu outro caminho.
São Jerônimo é frequentemente representado ao lado de um leão, símbolo de força e autoridade (leão = rei). A tradição também conta que viveu longos períodos recolhido em regiões montanhosas (montanha = Xangô). Além disso, ficou conhecido como estudioso das escrituras e defensor da lei divina. Esses elementos acabaram aproximando sua imagem da figura de Xangô, rei, juiz e senhor da justiça.
Por isso, nos antigos terreiros baianos, consolidou-se a tradição de celebrar Xangô em 30 de setembro, data de São Jerônimo. Foi essa vertente que influenciou grande parte da Umbanda e do Candomblé praticados atualmente.
Um exemplo interessante é a tradicional Festa da Pedreira de Xangô, realizada no Rio de Janeiro desde a década de 1940. Nela, a imagem de São Jerônimo ocupa posição central nas homenagens ao Orixá, mostrando como essa tradição ultrapassou as fronteiras da Bahia e se espalhou pelo país.
Por isso não existe contradição.
Historicamente, São João e São Jerônimo foram caminhos diferentes encontrados por comunidades diferentes para representar o mesmo Orixá.
Aqui no Barracão seguimos a tradição de celebrar Xangô em setembro, no dia de São Jerônimo. Mas conhecer essa história nos ajuda a entender por que, quando chega o dia 24 de junho, tanta gente também se lembra de Xangô ao redor das fogueiras de São João, e o Barracão também traz seus mensageiros em junho.
No fim das contas, estamos falando do mesmo Rei, reverenciado de formas diferentes ao longo da história e em diferentes regiões do Brasil.