Òbàrà Méjì e a Prosperidade
Por: Paulo Makyama
Celebrado em 06 de Junho, a lenda de Obará inspira rituais e oferendas voltados à fartura.
No dia 06/06 de cada ano, podemos observar muitas Casas de Matriz Africana realizando ritos em homenagem a Òbàrà Méjì, Odu que geralmente é associado à prosperidade, riqueza material e fartura e por esse motivo, costuma ser celebrado, ofertado e presenteado.
Òbàrà, pelo sistema Bamboxê, é o sexto Odu (Sétimo pela ordem de chegada de Ifá). Tradicionalmente, este Odu é atribuído a Xangô e Oxóssi, além de Ori (a cabeça).
Em um de seus Esé (subcaminhos), o itã que explica essa prática religiosa nos conta que no princípio do mundo, quinze dos dezesseis Odus foram à casa de um babalaô para saber o que fazer para melhorar de vida. Obará não estava entre esses quinze, porém, assim que ficou sabendo das instruções do oráculo, deu o máximo de si para cumprir a prescrição ritual, coisa que os demais Odus não se dignaram a fazer.
Dali a cinco dias, dirigiram-se à casa de Olofim-Olodumare (também conhecido como Olorum), excluindo Obará do cortejo, pois julgavam ser ele um Odu pobre, e por conta disso, tinham vergonha dele.
Olodumare presenteou a cada um com uma abóbora, que para não fazer desfeita, aceitaram o presente e se foram.
No meio do caminho, sentiram fome e se lembraram de que estavam perto da casa de Obará. A contragosto, fazem uma visita a Obará e pedem que ele os alimente, pois não haviam comido nada na casa de Olodumare.
Generoso, apesar da situação em que vivia, Obará não hesitou em acolher os quinze Odus e servi-los de tudo que quisessem. Inclusive, descansaram na casa de Obará após a refeição. Antes de partir, os Odus entregaram a Obará as abóboras presenteadas por Olodumare, e foram embora.
A esposa de Obará chamou sua atenção, pois haviam servido toda a comida de que dispunham aos quinze Odus que sequer tratavam-no como seu igual, e agora nada tinham para se alimentar. Porém, ele estava certo de que esse ato de delicadeza haveria de lhes trazer boa sorte.
Foi então que Obará, com fome, abriu uma das abóboras, e dentro dela descobriu uma quantidade surpreendente de ouro e pedras preciosas. Seguiu abrindo as demais, e tornando a encontrar um novo tesouro. Com isso, Obará pôde dar fim à penúria em que vivia, comprando tudo que havia de necessidade e viver uma vida confortável.
Foi então que os Odus se encontraram na casa de Olodumare novamente. Obará foi o último a chegar, com toda pompa e circunstância, acompanhado de um grande séquito, composto de servos, músicos e acompanhantes, pois ele havia se tornado o mais rico de todos.
Os quinze esbravejaram de inveja, e quando Olodumare questionou o que haviam feito com as abóboras, informaram que abandonaram as abóboras no quintal de Obará. Foi então que a divindade suprema disse que dentro de cada abóbora havia uma fortuna que ele próprio havia destinado para cada um dos Odus, mas que, ao tomarem aquela atitude, foram eles próprios quem tornaram Obará o mais rico ao rejeitar o presente que consideravam sem valor.
Por isso, um dos presentes que se costuma oferecer a Obará no dia 06/06 é justamente uma abóbora aberta, na qual se coloca várias sementes e grãos, simbolizando a prosperidade e a fartura mencionadas na narrativa. Com intenção similar, pode-se oferecer, também, fazer uma oferenda com frutas diversas, doces e moedas em número de seis, como um pedido para que Obará traga caminhos abertos de felicidade e êxito nas finanças e nos negócios. Porém, vale ressaltar que, mesmo presenteando a Obará, nunca se deve deixar de fazer a sua parte e botar a mão na massa, pois o esforço pessoal e o trabalho árduo também são pontos cruciais que irão potencializar os pedidos de prosperidade no âmbito espiritual.
O ato de se presentear o Odu, apesar de ser prática comum à religiosidade afro-diaspórica no Brasil, nem sempre é referendado por praticantes do culto tradicional iorubá, pois segundo eles, não se trata de uma ritualística comum à realidade do contexto em terras iorubanas, já que o entendimento é de que o Odu indica qual orixá necessita de ritualísticas para propiciar boa-sorte (àwure) para o adepto, sem ser ele próprio um ente a ser ofertado, presenteado ou assentado. Tratam-se de dois pontos de vista distintos, mas que não anulam a validade de uma prática ou de outra, necessariamente.