Hoje é 17/11/19 ,Domingo, dia de Oxalá

Os Obás de Xangô

Paulo Makyama explica essa tradição.

Por: Paulo Makyama

Paulo Makyama explica essa tradição.

O corpo sacerdotal de Obás de Xangô foi instituído por Mãe Aninha, fundadora do Ilê Axé Opô Afonjá, em 1937, aconselhada por seu braço-direito, o intelectual e Babalaô Martiniano Eliseu do Bonfim, Ojé Ladê, para homenagear Xangô, Orixá patrono da Casa, já que os Obás teriam sido reis e governantes dos territórios conquistados por Xangô, e também, segundo Adriano Azevedo, o atual Obá Abiodun, “estrategicamente” - provavelmente como uma maneira de arrefecer a perseguição a que os terreiros eram submetidos, atribuindo maior prestígio e maior proteção ao culto de Xangô além de, internamente, equilibrar o poder masculino dentro da hierarquia do terreiro de raíz matriarcal, já que o conselho religioso é formado exclusivamente por mulheres. 
 
Sua criação encontra respaldo no Odu Ejilaxeborá, que em seu primeiro caminho narra a ascensão de Xangô ao trono, em que o Orixá dos Trovões mandou Oiá buscar um talismã em terras Baribas que lhe conferissem um poder único. Porém, o fogo que saía pela boca de Xangô acabou por incendiar e destruir a cidade, evento após o qual Xangô desapareceu do mundo junto de Oiá e ambos se tornaram Orixás. Os sacerdotes que mantiveram sua fé inabalada e que perpetuaram em terra o nome de Xangô, formaram então o grupo de conselheiros que defendem a causa que valoriza o nome de Xangô.
 
São doze os Ministros de Xangô, sendo seis da esquerda, tendo direito ao voto, e seis da direita, com direito à voz e ao voto. A estes últimos, é reservado o direito de saudar Xangô com o xeré, um dos símbolos do Orixá, espécie de chocalho feito de cabaça alongada ou de cobre que, quando agitado, lembra o barulho da chuva. Posteriormente, este número foi ampliado para 36 por Mãe Senhora por meio da criação dos sub-postos Otun e Osi, 1º e 2º suplentes, respectivamente, que seriam os herdeiros da cadeira de cada Obá em caso de morte do titular.
 
Segundo Ribamar Daniel, presidente do Conselho Civil do Ilê Axé Opô Afonjá, o título é geralmente concedido a Ogãs, Sacerdotes que ocupam funções específicas dentro da Casa, ou a personalidades simpatizantes que não necessariamente pertençam à religião. Os Obás são braços-direitos da Iyalorixá dentro do terreiro, sendo uma representação civil do terreiro junto à Sociedade, em um tempo em que os cultos afro-brasileiros precisavam pedir autorização à polícia para funcionar, e inúmeros praticantes tiveram seus rituais interrompidos e seus objetos de culto apreendidos. 
 
Fizeram e fazem parte deste célebre Corpo Sacerdotal figuras como o romancista Jorge Amado, o pintor Carybé, o tapeceiro Genaro de Carvalho, Camafeu de Oxóssi, mítico proprietário da Barraca São Jorge, o compositor Dorival Caymmi, o antropólogo Vivaldo Costa Lima, o escritor Antonio Olinto, o professor Muniz Sodré e o ex-ministro da Cultura, Gilberto Gil.
 
Como uma legítima Casa na qual um dos Orixás Patronos é Xangô, e tomando como exemplo a iniciativa histórica de Mãe Aninha, o Barracão de Pai José de Aruanda também buscou trazer o reconhecimento às figuras que tanto contribuem para nossa comunidade-terreiro, e que lutam diariamente pela manutenção da mesma e para salvaguardar os direitos da mesma junto à sociedade civil.
 
Este título, representado simbolicamente pela cuia com doze Oxês, foi conferido, até o presente momento, a duas pessoas de fundamental importância para o Barracão: o delegado e vereador Paulo Sérgio Martins, hoje umbandista, filho de santo da Casa, grande amigo e defensor das religiões de Matriz Africana na cidade de Jundiaí há mais de dez anos, cuja iniciativa culminou na criação da UniTerreiros, associação sem fins lucrativos que busca representar coletivamente os templos de Umbanda e Candomblé na cidade de Jundiaí e região, e Senilto Francisco Simões, o saudoso “Seu Simões”, falecido em Março de 2018, que sempre zelou pela Assistência, em especial pelos filhos dos membros da corrente e visitantes, o que sempre permitiu que os trabalhos transcorressem na certeza de que as crianças que ali estivessem estariam seguras - fazendo o papel de um verdadeiro “Ojú Ọba”, os Olhos do Rei, a quem nada escapa. 
 
Sobre o falecido Obá, o Babalorixá Alexandre Falasco relembrou: “Seu Simões foi um grande membro da nossa família Barracão, nosso Obá, um grande amigo que conheci nesta jornada, que com sua humildade, simplicidade e muito bom humor nos deu uma lição de vida, de como se pode levar uma vida feliz com leveza e ser querido e amado por tantos, sempre prestativo no cotidiano da nossa casa, peça fundamental e insubstituível de nossa comunidade, tenho certeza de que hoje está muito bem amparado por aqueles que tanto respeitou enquanto esteve aqui na Terra.”
 
Kasun rè ó, Ọ̀lọ̀rún kosí puré, Ọba wa! (Descanse em Paz, Que Deus lhe dê o descanso eterno, nosso Obá!