Hoje é 19/11/18 ,Segunda-Feira, dia de Exú

E Mavile, Mavango!

Pontos cantados do Padê do Barracão.

Por: Paulo Makyama

Pontos cantados do Padê do Barracão.

Para dar início a esta coluna aqui no Giras, achei nada mais justo do que falar sobre os pontos cantados que utilizamos neste importantíssimo ritual que abre todos os trabalhos no Barracão de Pai José de Aruanda, o Padê para Exu.
 
O nome Padê vem do Iorubá Ìpàdé¸e significa “encontro, reunião”. Trata-se de um ritual que herdamos dos nossos irmãos mais velhos do Candomblé, e que consiste em fazermos uma oferenda para Exu com farinha de milho amarela ou farinha de mandioca, azeite de dendê, cebola roxa, pimenta e aguardente. 
 
Se no Candomblé este ritual é realizado para saudar o Orixá mensageiro e pedir que ele comunique os Orixás de que Sua presença é requisitada no Àiyé (o mundo dos homens), na Umbanda, ao fazermos esta oferenda, pedimos a proteção do Orixá Exu, bem como de seus representantes diretos, as entidades Exus, para que os trabalhos transcorram bem, e que não haja nenhuma interferência externa que possa ser negativa. Na prática, este ritual evita a necessidade dos chamados “descarregos”, dessa maneira poupando o médium deste desgaste.
 
Ao ouvirmos o sino que o Ogã Alagbé toca três vezes, entoamos o primeiro ponto:
 
E Mavile, Mavango!
E kompesu e, ra, ra, ra
E kompesu e
 
Neste primeiro momento do ponto, em Quimbundo, saudamos Mavile, que se refere a todas as qualidades de Mpambu Njila, Aluvaiá, inquices com qualidades que se aproximam do Exu iorubá. “Mavile” significa “leite”, fazendo alusão à ligação do Orixá e do Inquice com a fertilidade masculina. “Mavango” é um termo que pode ter duas acepções: ele pode se referir a Mavambu, inquice conhecido como o Senhor do barro, de estreitas ligações com Nkosi (inquice com qualidades que se aproximam do Orixá Ogum), pois Mavambu vigiaria os caminhos pelos quais Nkosi havia passado e conquistado. Ou então, “Mavango” pode se referir a Mavilutango, inquice da dança, do Movimento, simboliza o corpo (e consequentemente, a humanidade) e, que permite ao homem, por meio de seu corpo e da dança, se relacionar com este e com o “outro” mundo, o profano e o divino. Por estas atribuições é que considera ser este o inquice encarregado de estabelecer a levar os pedidos dos homens aos Orixás por meio do Ipadê. Por fim, “E kompesu e, ra, ra, ra” exalta, ainda, as qualidades do Inquice Mavile, pois indica que este “conquista como um Soberano”. (tal qual Nkosi, ou em conjunto de Nkosi).
 
O ponto continua:
 
Ê, Exu Apavenã, Exu Apavenã
Menandê, indauê
Exu Apavenã
E Exu indauê
Exu indauê
Menandê, indauê
Exu Apavenã
 
Aqui, o ponto se volta para Apavenã, senhor das oferendas, o mensageiro que é sempre o primeiro a ser chamado e louvado em todos os rituais. “Menandê indauê” faz novamente uma referência à regência do Orixá e do Inquice sobre a fecundidade, pois indica que “Sua Oferenda (mê andê) é o falo da fertilidade”, isto é, o que traz a virilidade masculina e ajuda a propiciar a continuidade da humanidade. O ponto encerra afirmando que é Exu em si quem propicia essa perenidade. (Exu Indauê, Exu é o falo que dá a vida, faz nascer).
 
Findo este ponto, as Mães de Santo e Mães Pequenas, podendo ser auxiliadas por algumas filhas mais antigas da Casa, levam o Padê até a Canjira, e em seu retorno ao Congá, o Pai de Santo entoa a segunda cantiga:
 
Malelé, Malelé, Malelé, Malelé (e)wa
Malelé, Malelé,
As Pombagiras de Malelé!
 
Este ponto em Iorubá fala sobre Malelê, uma qualidade de Iemanjá que mora nas águas mais profundas. Durante o ponto, os filhos de santo movimentam seus braços para trás, como se estivessem “remando” e jogando a água para trás, já que Malelê vem sempre à beira do mar apanhar as suas oferendas. O ponto menciona a beleza de Iemanjá (Malelé èwa), ou ainda, demonstra carinho para com a Mãe d’Água (Malelê, Malelê, nossa Malelê (Malelé wa)

“As Pombagiras de Malelé” figuram no ponto evocando a ligação desta qualidade de Iemanjá com o Orixá Exu (e, por conseqüência, das entidades femininas Pombagiras, que trabalham junto de Exu sob a irradiação deste Orixá). Seriam elas, portanto, que auxiliariam Malelê a recolher as oferendas à beira da praia.