Hoje é 28/06/17 ,Quarta-Feira, dia de Xangô

O Candomblé.

O que é o Candomblé e qual sua influência na Umbanda.

Por: Alexandre Falasco

O que é o Candomblé e qual sua influência na Umbanda.

Para compreender as influências dos cultos de nação africana na liturgia umbandista devemos conhecer melhor o Candomblé praticado no Brasil, famoso pelas tradicionais casas de nação Ketu (Nagô) da Bahia, e suas Mães de Santo tão respeitadas e conhecidas em todo o País.
 
Como exemplo, podemos citar a Casa Branca do Engenho Velho, o primeiro terreiro de Candomblé do Brasil, o Ilê Axé Opó Afonjá, de Mãe Aninha e Mãe Senhora, citada como a maior Ialorixá da Bahia na música de Vinícius de Moraes, e o Gantois (se pronuncia Cantuá), da mais famosa Mãe de Santo que já existiu, Maria Escolástica da Conceição Nazaré, a Mãe Menininha do Gantois.
 
Falaremos especificamente da nação Ketu, pois o objetivo é falar da influência destes cultos na nossa Umbanda, e se na Umbanda, chamamos nossos Orixás de “Orixás” e não de Voduns ou Inkices, se nosso Orixá do Trovão é Xangô e não Queviosô ou Zázi, estamos falando na língua Iorubá, que é a língua na nação Ketu/Nagô, e este é sem dúvida o culto de nação do qual mais herdamos elementos na nossa liturgia, a exemplo da própria teogonia.
 
Se trata de um grande universo mágico, de tradições milenares, passadas oralmente de pai para filho desde os tempos das tribos africanas até o desembarque destas mesmas tradições junto com os escravos africanos que aqui aportaram para suprir a mão de obra escrava deixada pelos índios, já que os primeiros habitantes deste País, como bom conhecedores destas terras, facilmente escapavam de seus escravizadores.
 
Estes escravos negros foram aprisionados nas diversas regiões da África e trazidos em navios negreiros para o Brasil, onde eram separados de seus familiares e de sua gente, forçados a se misturar com outros escravos negros de nações diferentes, de religiosidade diferente, numa tentativa de seus donos de inibir rebeliões organizadas, já que em muitos casos se tratavam até de tribos rivais em sua terra natal.
 
Esta explanação resumida se faz necessária para explicar, também a grosso modo, o surgimento do próprio Candomblé, pois na África, cada família, tribo ou região cultuava um determinado Orixá e esta mistura de tribos que se deu quando chegaram aqui, obrigou a se fazer um culto mais generalizado, mais abrangente, para se cultuar em uma única senzala, por exemplo, os Deuses de diferentes regiões africanas.
Este é um dos fatores que juntou o culto de diferentes Orixás em um único e novo culto, o Candomblé.
 
Outro fator excluiu diversos deles.
Como os escravos não queriam ver o sucesso e a fartura abraçar seus dominadores, por motivos mais do que óbvios, já que é humanamente impossível se desejar prosperidade a quem te tira de sua família e o chicoteia várias vezes ao dia, determinados Orixás, responsáveis pelo sucesso na lavoura, pelo bom andamento dos negócios e diversas outras características que pudessem colaborar com os donos de escravos foram deixados de lado, não sendo cultuados, portanto.
 
Sabe-se que não se tratava apenas de 16 Orixás, são muitos mais. Ainda podemos encontrar específicos 32, mas ainda assim não chega perto do número original.
 
É por isso que uma das características mais marcantes do Candomblé é a obrigação de seus filhos de cultuar e “cuidar” do Orixá de sua coroa, individualmente, o que conferi ao sacerdote, a Mãe ou Pai de Santo, uma outra obrigação, a de ensinar a fazer isso e portanto a obrigação de conhecer todas as divindades e não só o seu Olorí. 
 
O Sacerdote candomblecista assume diferentes funções que no culto original africano eram divididas, além de cuidar de seu Orixá regente e saber cuidar dos de seus filhos, é dele também a função de Babalaô, ao indicar para estes filhos qual a sua filiação, através do jogo de búzios. No Candomblé nada se faz sem esta consulta, até mesmo as obrigações de cada filho-de-santo, que de igual forma, é responsabilidade do Pai e Mãe de Santo o bom preparo ritualístico da “cabeça” do iniciado, realizando camarinhas e feituras com diversos elementos mágicos e o Axé do sangue animal.
 
O sacrifício de animais se tornou o grande assunto polêmico quando se fala da liturgia candomblecista, simplesmente pelo erro de alguns no mau uso destes sacrifícios, onde animais são encontrados dilacerados e apodrecendo nas ruas para a realização, completamente equivocada, dos chamados “despachos”, feitos por pessoas que independente da religião que se dizem pertencer, ignoram completamente este fundamento, e isso sim está errado.
 
O fato é que o Candomblé se tornou a grande religião afro-brasileira, diferentemente da Umbanda, manteve fortemente as tradições africanas, repetindo fielmente os rituais lá praticados desde os tempos das tribos, e, colocando opiniões pessoais de lado, já que somos umbandistas e na Umbanda não se pratica sacrifício animal, a imolação de animais e o derramamento do sangue no altar em sacrifício aparece até na Bíblia, nos livros de Moisés, motivo pelo qual não devemos sair por aí falando bobagens a respeito de assuntos que desconhecemos. Além do que, era muito comum, como ainda é até hoje nas nossas regiões rurais, se matar uma galinha ou uma leitoa para oferecer um bom almoço a uma visita que acabou de chegar, o que dirá sendo esta a visita de um Pai, de um Orixá. Mas isso quando é feito da forma realmente fiel a liturgia original, onde tudo que se sacrificava em um terreiro de Candomblé depois era servido aos visitantes e filhos da casa, muito bem preparados pelas Iabassês, as cozinheiras de santo, divinas conhecedoras dos temperos e deliciosos pratos africanos.
 
Por outro lado, uma outra tradição maravilhosa, esta sim acoplada em nossos terreiros umbandistas, é a musicalidade, a curimba, os atabaques, musicalidade que não só influenciou a Umbanda como a própria música brasileira, motivo pelo qual, muitos terreiros de Umbanda ainda misturam cânticos (pontos) em Iorubá e também das outras nações aos seus cânticos em português, em respeito a suas raízes e numa tentativa de manter viva esta tradição que é um impressionante veículo do povo de santo para a comunicação com seus Orixás nos rituais da religião candomblecista.